Nutrição Integrativa

Comida é mais que comida

Para a Nutrição Integrativa as crenças, pensamentos e sentimentos e atitudes sobre a comida são tão ou mais importantes do que, simplesmente o que se come. Encontra por meio dos Cuidados Integrativos formas de facilitar a cada indivíduo o encontro consigo mesmo, sua essência, o porquê deve cuidar de sua saúde, qual o papel da alimentação em sua vida, como ferramenta de “cura”, de ligação com a vida, com o outro, com o cosmos. A alimentação é uma escolha e deve ser um ato consciente, visando saúde e bem estar. Não comemos apenas quantidades de nutrientes e calorias para manter o funcionamento corporal em nível adequado, pois há muito tempo os antropólogos afirmam que o comer envolve seleção, escolhas, ocasiões e rituais, imbrica-se com a sociabilidade, com ideias e significados, com as interpretações de experiências e situações.

Para serem comidos, ou comestíveis, os alimentos precisam ser elegíveis, preferidos, selecionados e preparados ou processados pela culinária, e tudo isso é matéria cultural (CANESQUI; GARCIA, 2005). Para Fischler (2011), a comida adquire um valor simbólico quando se escolhe o que vai comer. O homem “come significados” e partilha com seus pares uma infini­dade de representações no ato de comer.  Complementa dizendo que, o ato de comer tem um caráter muito particular, nada é tão vital e tão íntimo. Ingerindo os alimentos, as pessoas chegam ao que existe de mais interior de cada uma. Diferentemente das roupas, que apenas entram em con­tato com o corpo, os alimentos transformam-se em uma substância íntima, transformam-se no próprio corpo. O fato de a comida e o ato de comer serem prenhes de significados não leva a esquecer de que também comemos por necessidade vital e conforme o meio e a sociedade em que vivemos, a forma como ela se organiza e se estrutura, produzem e distribuem os alimentos. Comemos também de acordo com a distribuição da riqueza na sociedade, os grupos e classes de pertencimento, marcados por diferenças, hierarquias, estilos e modos de comer, atravessados por representações coletivas, imaginários e crenças (CANESQUI; GARCIA, 2005). Santos (2011) vai mais além, cita que as cozinhas locais, regionais, nacionais e internacionais são produtos da miscigenação cultural, fazendo com que as culinárias revelem vestígios das trocas culturais.  Este mesmo autor descreve que atualmente, os estudos sobre a comida e a alimentação invadem as Ciências Humanas a partir da premissa de que a formação do gosto alimentar não se dá, exclusivamente, pelo seu aspecto nutricional, biológico. O alimento constitui uma categoria histórica, pois os padrões de permanência e mudanças dos hábitos e práticas alimentares têm referências na própria dinâmica social. Os alimentos não são somente alimentos. Alimentar-se é um ato nutricional, comer é um ato social, pois constitui atitudes ligadas aos usos, costumes, protocolos, condutas e situações. Nenhum alimento que entra em nossas bocas é neutro. A historicidade da sensibilidade gastronômica explica e é explicada pelas manifestações cultu­rais e sociais, como espelho de uma época e que marcaram uma época. Sendo assim, uma comunidade pode manifestar na comida emoções, sistemas de pertinências, significados, relações sociais e sua identidade coletiva. Se a comida é uma forma de comunicação, assim como a fala, ela pode contar histórias e pode se constituir como narrativa da memória social de uma comunidade. Nesse sentido, o que se come é tão importante quanto quando se come, onde se come como se come e com quem se come. Enfim, este é lugar da alimentação na História. Fischler (2011) descreve que em algumas culturas comer é um ato considerado como sendo uma responsabilidade individual, uma forma de competência individual e em outras culturas comer é uma questão social, uma respon­sabilidade coletiva, onde o ato de comer não é algo apenas para si, mas é, principalmente, uma responsabilidade com o outro ou com os outros. Portanto, a Nutrição Integrativa resgata que a refeição é um momento de encontro, onde se compartilha além da comida, histórias, experiências, ideias e sentimentos. Nessa visão, o ato de cozinhar, o ambiente onde se come e a companhia, ou seja, com quem se come são tão importantes quanto uma alimentação equilibrada. A Nutrição Integrativa supõe que a alimentação envolve a dimensão da sensibilidade – da experiência que envolve a percepção dos alimentos quanto às cores, aromas, sabores e a textura - e também da afetividade. Ao fazer escolhas alimentares conscientes, o indivíduo está alimentando o corpo, a mente e o espírito, e, portanto, quando pratica o autocuidado na alimentação está se nutrindo e se cuidando em todas as esferas multidimensionais.

Referências

CANESQUI, A.M., GARCIA, R.D.W. Antropologia e Nutrição: um diálogo possível. 20 ed. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2005.

FISCHLER, C. Cultura e gastro-anomia: psicopatologia da alimentação cotidiana. Entrevista com Claude Fischler. [Editorial]. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 17, n. 36, p. 235-256, jul./dez.; 2011.

SANTOS, C.R.A. A alimentação e seu lugar na história: os tempos da memória gustativa. História: Questões & Debates, Curitiba, n. 54, p. 103-124, jan./jun., 2011.